🛁 A Cuidadora Ria Quando o Idoso Escorregava no Banheiro… Até a Filha Chegar Sem Avisar
Márcia Pimenta Dutra recebeu a mensagem às onze e quarenta da manhã, no meio de uma reunião de diretoria, e foi como se alguém tivesse desligado o ar-condicionado da sala inteira de uma só vez. Era de Dona Zuleide, a vizinha do apartamento ao lado do pai, uma senhora que nunca mandava mensagem sem antes pedir desculpas pelo incômodo, e que dessa vez escrevera apenas: “Márcia, eu sei que não é da minha conta, mas essa cuidadora do seu pai ri quando ele cai. Eu ouvi pela parede, três vezes essa semana. E ela filma.”
Márcia releu a frase duas vezes, pediu licença, saiu da sala com o celular apertado na mão e abriu o aplicativo da câmera que instalara havia meses na sala do pai, para acompanhar de longe. A imagem carregou devagar, em tons amarelados, e mostrou o corredor, a porta entreaberta do banheiro e, lá dentro, um vulto de roupão azul-marinho de pé sobre um tapete amassado. Ela ampliou a tela, e no instante exato em que o dedo tocava o vidro, o vulto escorregou. As pernas voaram. O corpo inteiro deslizou pelo piso molhado, e no canto direito do quadro, uma mulher de uniforme azul-claro, com o celular erguido à altura do rosto, explodiu numa gargalhada.
Márcia não esperou o elevador. Desceu seis lances de escada, entrou no carro com a bolsa no ombro e dirigiu quarenta minutos sem ouvir o rádio, sem acender a seta, com os nós dos dedos brancos no volante e uma única frase batendo na cabeça, repetida, ritmada: oitenta e quatro anos, oitenta e quatro anos, oitenta e quatro anos.
Parou numa loja de ferragens no caminho, entrou correndo, comprou o primeiro tapete antiderrapante que viu, uma placa cinza e fosca de pedra prensada, e saiu com ela debaixo do braço, como quem leva uma arma.
Abriu a porta do apartamento do pai com a chave, e o som que a recebeu a paralisou: uma risada. Não era a risada seca, cruel, que ela imaginara durante todo o trajeto. Era uma gargalhada ampla, rouca, de peito aberto, que ela reconheceu antes mesmo de entender de onde vinha, porque a ouvira pela última vez, na infância, sob uma lona vermelha, numa tarde de domingo. Era o riso do pai.
Márcia atravessou a sala a passos largos, empurrou a porta do banheiro com o ombro e parou. Dentro, de pé entre o box e a pia, com o roupão molhado e o rosto vermelho de tanto rir, Seu Nelson Albuquerque Pimenta limpava uma lágrima com o dorso da mão. Ao lado dele, a cuidadora, Jaqueline Moraes, trinta e quatro anos, cabelo preso num coque alto, ainda segurava o celular apontado para ele e tentava, sem sucesso, recuperar o fôlego.
— O que está acontecendo aqui?
A cuidadora se virou, e o riso morreu na garganta. Seu Nelson, ao ver a filha, abriu um sorriso enorme, de menino flagrado numa travessura.
— Márcia! Chegou cedo!
— Pai, o senhor caiu. Eu vi.
— Caí, sim. Caí lindo.
— Lindo? — A voz dela saiu estridente. — O senhor tem oitenta e quatro anos! Essa mulher estava rindo! Estava filmando! — Ela levantou o tapete antiderrapante como quem ergue uma prova num tribunal. — Eu trouxe isso porque a Dona Zuleide me avisou que o senhor está caindo toda semana, que ela ria, que…
Márcia parou. Percebeu, só então, que o pai não tinha nenhum arranhão. Nenhum hematoma, nenhum sinal de dor no rosto, nenhuma sombra de medo nos olhos. Ele estava de pé, firme, apoiado numa perna só, com a postura de quem acabou de sair de um alongamento, e ao lado dele, no chão, uma toalha dobrada em quatro e um cobertor fino estendido sobre os azulejos, exatamente onde a câmera mostrara uma superfície escorregadia.
— Pai.
— Eu sei, filha, eu sei. — Seu Nelson tocou-lhe o braço com uma delicadeza que ela não lembrava. — Vamos sentar na sala. Tem uma história que eu preciso te contar, e que eu devia ter contado há quarenta anos.
Sentaram-se os três, Márcia numa poltrona de couro, o pai no sofá, Jaqueline de pé junto à estante, com as mãos entrelaçadas diante do corpo, olhando para o chão. Havia na sala uma caixa de papelão aberta sobre a mesa de centro, e dentro dela, dobrado com cuidado, um macacão amarelo-ouro cheio de remendos coloridos, uma gola de babados vermelhos e um nariz de espuma, desbotado, que Márcia reconheceu antes mesmo de tocá-lo.
— Isso é…
— O Pipoca — o pai respondeu, a voz baixa. — Meu palhaço. Eu nunca joguei fora.
Márcia sentiu o estômago afundar.
Durante quarenta e cinco anos, Seu Nelson Pimenta fora o Palhaço Pipoca, a estrela do Circo Esperança, que fundara com a esposa Zélia numa lona remendada, num terreno baldio da Vila Industrial, e que depois de décadas de apresentações se tornara uma instituição no bairro. Márcia crescera dentro daquela lona, acordara com cheiro de serragem e pipoca, aprendera a andar entre cavalos e trapézios. E aos catorze anos, numa tarde de março, ouvira de uma colega de escola a frase que mudaria sua vida: “Seu pai é aquele palhaço velho, né? Que vergonha.”
Naquela noite, ela pediu aos pais que nunca mais a buscassem na escola. Aos quinze, passou a dizer aos colegas que o pai era contador. Aos dezoito, foi estudar administração em outra cidade, e nunca mais voltou a pisar numa lona. Quando a mãe morreu, seis anos antes, Márcia chegou ao enterro de salto alto e óculos escuros, cumprimentou os artistas do circo com a polidez distante de quem visita um museu, e foi embora antes do café.
— O senhor nunca falou nada — ela murmurou.
— Porque você nunca perguntou. — Seu Nelson sorriu, sem rancor. — E eu entendia. Palhaço é profissão de gente que ri dos outros e dos próprios tropeços. Não é fácil ser filha disso.
A cuidadora pigarreou, tímida, e deu um passo à frente.
— Dona Márcia, eu posso explicar o que a senhora viu?
— Por favor.
Jaqueline respirou fundo, tirou do bolso do uniforme o celular, desbloqueou a tela e o colocou sobre a mesa, ao lado do macacão.
— Eu sou ex-trapezista, Dona Márcia. Trabalhei doze anos em circo, até me machucar no ombro e ter que parar. Aprendi cuidado de idosos num curso técnico, por necessidade, e comecei a trabalhar com o seu pai há seis meses. — Ela abriu uma pasta de vídeos no aparelho. — No primeiro dia, ele me contou que era palhaço. No segundo, me contou que tinha medo de cair.
— Eu tinha — Seu Nelson confirmou, baixinho.
— Aos oitenta e quatro anos, uma queda pode matar. A senhora sabe disso melhor do que eu. — Jaqueline ergueu os olhos. — Mas existe uma técnica, que se ensina a trapezista e a acrobata, de como cair sem se machucar. Rolar o ombro, proteger a cabeça, distribuir o impacto. Eu sou boa nisso. E o seu pai foi palhaço de queda a vida inteira. Ele sabia cair melhor do que qualquer pessoa que eu já conheci. Só tinha esquecido.
— Esquecido?
— Depois que a Dona Zélia morreu, ele parou de se mexer, Dona Márcia. Parou de cair, parou de brincar, parou de rir. Ficou três anos sentado nesse sofá. E o corpo dele foi enrijecendo. — Jaqueline apertou os lábios. — Eu comecei devagar. Primeiro uma queda de joelho sobre o colchão. Depois uma de ombro. Depois uma de lado. Com a aprovação do geriatra, o doutor Ruy Camargo, que me deu até um atestado.
Ela tirou do bolso interno da pasta um papel dobrado, com timbre de clínica, e o entregou. Márcia o leu em silêncio: “Autorizo a paciente Nelson Pimenta Albuquerque a realizar treinamento de queda segura, supervisionado, três vezes por semana, como parte do programa de prevenção de fraturas e recuperação de mobilidade. Dr. Ruy Camargo, CRM.”
— O banheiro?
— O banheiro foi um erro meu — Jaqueline admitiu, a voz embargada. — Eu pedi pra senhora comprar um tapete antiderrapante três semanas atrás, por mensagem. A senhora disse que ia ver e não viu. Hoje de manhã, ele escorregou de verdade, e eu nem tive tempo de pensar. Ele rolou o ombro, caiu de lado, protegeu a cabeça, e levantou rindo, fazendo uma reverência. Eu ri de alívio, Dona Márcia. De orgulho. Ele fez a queda perfeita, na hora em que mais precisava, depois de cento e quarenta quedas de treino. E eu filmo tudo, pra mostrar ao médico, pra ver se o ângulo do ombro está certo.
Ela tocou na tela e reproduziu o primeiro vídeo da pasta. Márcia debruçou-se, e o que viu a fez levar a mão à boca.
Era a sala. Era o pai, de macacão amarelo remendado, com a gola de babados no pescoço e o nariz de espuma vermelho, de pé sobre um colchão de ginástica. Ele dava dois passos, fingia escorregar numa casca de banana invisível, girava o corpo no ar com uma elegância que o tempo não roubara, rolava o ombro, deslizava pelo colchão e terminava sentado, de pernas abertas, de braços estendidos, com uma expressão de espanto tão pura, tão cômica, tão absolutamente dele, que Márcia soltou, sem querer, uma risada curta, molhada.
— É a queda da casca de banana — Seu Nelson disse. — A primeira que eu aprendi com o meu pai, em 1957.
— Pai, eu não sabia que o senhor ainda conseguia…
— Nem eu. — Ele deu de ombros, os olhos molhados. — Mas a Jaque me lembrou.
Márcia ficou olhando para o vídeo, que continuava a rodar, e pela primeira vez em trinta e oito anos sentiu o peito afrouxar. Depois de um minuto inteiro de silêncio, ela se levantou, foi até o banheiro, voltou com a toalha dobrada e o cobertor molhados, e os colocou no chão. Pegou o tapete antiderrapante, a placa cinza e fosca, e foi até o box. Deixou-o ali, firme, antes de voltar à sala e sentar-se de novo.
— Jaqueline.
— Pois não.
— Eu preciso pedir desculpas.
— A senhora não…
— Preciso, sim. Eu te chamei de cruel na minha cabeça durante quarenta minutos de estrada, e você tinha razão em tudo. — Márcia enxugou o rosto com a manga. — Eu devia ter vindo antes. Eu devia ter perguntado ao meu pai o que ele estava fazendo, em vez de mandar câmera pra espiar.
— A câmera foi uma boa ideia, Dona Márcia. Sem ela, a senhora não teria vindo.
Seu Nelson, observando as duas, deu uma risadinha.
— Então a câmera salvou a pátria. Palhaço também sabe agradecer a quem vigia.
Foi só nesse instante que Márcia reparou, sobre a mesa, num cartaz enrolado, preso por um elástico. Estendeu a mão. O pai a deteve com um gesto suave, hesitou, e depois assentiu. Ela desenrolou o papel devagar. Era um cartaz amarelo, impresso em tinta vermelha: “Última Apresentação. Circo Esperança. Sábado, às 19h. Terreno da Vila Industrial. Homenagem ao Palhaço Pipoca. Entrada franca.”
— O circo vai fechar.
— A prefeitura vendeu o terreno. Vão construir um estacionamento. — Seu Nelson alisou o macacão dobrado sobre os joelhos. — Os meninos me ligaram semana passada. Pediram pra eu fazer uma última queda. Só uma. Pra despedir a lona.
— E o senhor aceitou.
— Aceitei. — Ele sorriu, o sorriso largo e travesso que ela vira no vídeo. — Foi por isso que eu pedi à Jaque pra me treinar. Ela me disse que a única forma de cair no palco, na minha idade, é treinar até o corpo não pensar. Tem trinta e dois dias que a gente ensaia. Eu ia te contar, mas tinha medo.
— De quê?
— De você ter vergonha de novo.
Márcia sentiu os olhos arderem. Dobrou o cartaz com cuidado, colocou-o de volta sobre a mesa, e respirou fundo.
— Eu não tenho vergonha, pai. — A voz dela saiu rouca. — Eu tenho saudade.
No sábado, às sete da noite, o terreno da Vila Industrial estava cercado por mais de seiscentas pessoas. Havia crianças sentadas sobre os ombros dos pais, velhos de bengala, famílias inteiras de banquinho nas mãos, vendedores de pipoca encostados na cerca, e sob a lona remendada, iluminada por lâmpadas amarelas, a pista de serragem pronta, com um colchão invisível disfarçado sob o piso, cuidadosamente montado por Jaqueline, e a velha casca de banana de espuma, pintada de amarelo, esperando num canto.
Márcia, de calça jeans e camiseta preta, sentou-se na primeira fileira, ao lado do doutor Ruy Camargo, que viera de gravata borboleta vermelha, por brincadeira, e de Dona Zuleide, que não parava de enxugar os olhos. O apresentador, um rapaz de cartola e fraque, anunciou, com a voz grave de um mestre de cerimônias de verdade:
— Senhoras e senhores! O Circo Esperança, em sua última noite, apresenta o maior palhaço que esta cidade já conheceu! O senhor Nelson Albuquerque Pimenta, o Palhaço Pipoca!
A lona desabou em aplausos.
Seu Nelson entrou pela cortina de veludo, de macacão amarelo remendado, gola de babados, nariz vermelho de espuma, sapatos enormes que faziam um ruído de borracha a cada passo. Caminhou até o centro da pista, fez uma reverência desajeitada e, sem dizer uma única palavra, deu três passos para a frente. O quarto passo pisou na casca de banana. Seu corpo girou. Os pés subiram. O ombro rolou com a precisão de uma bailarina, o braço protegeu a cabeça, o corpo deslizou pela serragem e parou, sentado, de pernas abertas, com a expressão de assombro mais pura que Márcia vira em toda a vida.
A lona veio abaixo. As crianças gritavam, os velhos choravam de rir, e no meio do estrondo, na primeira fileira, Márcia se levantou, as mãos tremendo, as lágrimas escorrendo pelo rosto, e ouviu a própria voz, saindo do fundo do peito, gritar:
— Muito bem, pai! Muito bem!
Ele a procurou com os olhos, achou-a entre a multidão, e piscou.
Foi então, no auge da ovação, que o apresentador tomou o microfone de novo.
— Senhoras e senhores, o Pipoca tem uma última surpresa. Ele pediu, e a gente não pôde negar: o circo precisa de uma parceira para o número final. Uma antiga estrela da casa, que a lona não vê há mais de trinta e oito anos. A Palhacinha Pimentinha!
Márcia gelou. Olhou para o pai, que sorria, de braços estendidos. Olhou para Jaqueline, de pé junto à cortina, com os olhos brilhando e um pequeno nariz vermelho na palma da mão. Olhou para a plateia, que a aplaudia sem saber de quem se tratava.
— Eu não…
— Vai, Dona Márcia — Dona Zuleide sussurrou, empurrando-a com a mão. — Vai. Você nasceu pra isso.
Ela caminhou até a pista com as pernas trêmulas. Jaqueline lhe entregou o nariz de espuma, que ela encaixou no rosto com uma risada nervosa. O pai tomou-lhe a mão. E ali, no centro da lona, diante de seiscentas pessoas, ela fez, sem pensar, o gesto que o corpo ainda sabia: dobrou um joelho, fingiu escorregar na casca de banana, girou e caiu sentada ao lado do pai, de pernas abertas, com a mesma expressão de espanto que ele fizera, enquanto a plateia explodia numa ovação tão alta que o toldo vibrou.
A apresentação durou onze minutos. Quando terminou, Seu Nelson, de pé no centro da pista, pegou o microfone das mãos do apresentador e, com a voz rouca, ainda de nariz vermelho, disse a única frase do espetáculo inteiro.
— O segredo do palhaço é cair sorrindo e levantar de novo. Só que agora, com tapete antiderrapante.
A risada foi tão forte que algumas crianças começaram a chorar de tanto rir.
A gravação daquela noite, feita por Jaqueline, de um canto da plateia, e postada sem grande expectativa num domingo de manhã, passou de dois milhões de visualizações em quarenta e oito horas. O jornal local publicou uma matéria, a televisão regional enviou uma equipe, e na segunda semana, uma produtora de documentários ligou, interessada em contar a história do último palhaço da Vila Industrial. A pressão pública foi tamanha que a prefeitura, em duas reuniões tensas, cancelou a venda do terreno, reclassificou a área como espaço cultural e declarou o Circo Esperança patrimônio imaterial do bairro.
O doutor Ruy Camargo, impressionado com o resultado, apresentou o método de Jaqueline num congresso de geriatria, onde cinco hospitais pediram a adoção do treinamento de queda segura em seus programas de reabilitação. Ela passou a coordenar, três meses depois, um projeto-piloto numa clínica municipal, com Seu Nelson como instrutor voluntário, de macacão amarelo e nariz de espuma, ensinando outros idosos a cair, e a levantar rindo.
Num fim de tarde, meses depois, Márcia estava sentada no sofá do pai, folheando um álbum de fotografias antigas, quando encontrou uma imagem de uma menina de seis anos, de nariz vermelho e gola de babados, ao lado de um palhaço amarelo e de uma mulher de peruca cor-de-rosa. Virou a foto. No verso, com a letra caprichada da mãe, estava escrito: “Pimentinha e Pipoca, e a Zélia no meio, como sempre.”
Ela passou o polegar sobre a letra da mãe, levantou os olhos para o pai, que cochilava na poltrona, e sorriu. Depois, devagar, para não acordá-lo, colocou a foto numa moldura sobre a estante da sala, ao lado de uma outra, mais recente, em que uma mulher de uniforme azul-claro, com um nariz vermelho de espuma, dava a mão a um velho palhaço de oitenta e quatro anos, os dois caindo de rir.